Geram filhos sem ser mães

Artigo de Márcio Linck*
O amor de mãe, que será bastante enaltecido por uma data comercial, porém carregada de um simbolismo pertinente ao que ela representa para todos os humanos, é difícil de ser definido e explicado em palavras. Fala-se em amor incondicional, desmedido e o sentimento mais profundo que se pode ter. E isso é muito verdadeiro. Trate-se de um sentimento tão universal e perceptível que pode ser estendido a quase todas as espécies do reino animal. E isso fica evidenciado pelos gestos de carinho, de proteção, zelo e provisão do alimento aos bebês. Mães humanas e não humanas passam fome para alimentar os seus filhotes; se expõem ao frio ou a outras intempéries para aquecer e preservar os mesmos; se preciso sacrificam e perdem a sua vida para proteger o filhote e jamais querem perder os mesmos para o mundo nefasto e para a morte.

A perda de um filho para uma mãe constitui-se numa eterna ferida a sangrar um peito ardente em dor. O escritor português José Saramago define que ser pai ou mãe constitui-se no maior ato de coragem, “porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza  de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado”. Nenhuma mãe quer perder seu filho e nós filhotes vulneráveis, tememos e não queremos ficar sem a proteção dela. Para os humanos ai de quem falar mal dela! Atacá-la fisicamente então? “Deus me livre!”.

Embora humanos vivenciem o amor recíproco e reconheçam o valor de suas mães, sequer respeitam minimamente o amor das mães não humanas. Pouco se importam com o sentimento igualmente nobre das demais fêmeas deste mundo. È evidente que já presenciaram gestos de proteção, de afeto e de carinho das mães de estimação feito gatas e cadelas, porque assim a formação cultural lhes permitiu! Mas e as outras mães feito vacas, porcas e galinhas (para ficar apenas nessas três espécies)? Respeitamos os seus instintos e sentimentos maternos? Estamos permitindo a convivência necessária entre as mães e seus filhos, ou estamos roubando estes para satisfazer egoisticamente os nossos desejos e vontades?  Ou será que não se pretende refletir sobre isso para não afetar a zona de conforto! É mais cômodo, obviamente, porém não isenta a co-responsabilidade em causar angústia, dor e sofrimento alheio.

Na moderna produção de leite, couro, ovos e carnes de todo o tipo, temos a exploração e expropriação não só da materialidade daquilo que extraímos e transformamos em produtos utilizáveis, mas de toda uma gama de afetividade sentida desde o ventre entre as mães e seus filhotes. Estamos produzindo “mães” impedidas de assim o ser, pois roubamos sem defesa seus filhotes e daí todas as possibilidades inerentes à condição e autonomia prática de sobrevivência e manutenção da vida. Mas humanos ficam horrorizados e solidários quando uma mãe tem seu filho roubado na maternidade de um hospital ou seqüestrado em qualquer outro momento da vida.

Caso do porquinho deficiente que voltou a andar porque sua mãe recusava-se a deixá-lo desistir e o incentivava a levantar, erguendo-o com o focinho. Não satisfeita, a mamãe coruja encorajava seu filhote a andar mesmo quando ele desistia, usando a boca para colocá-lo em pé. (Foto: Reprodução)

Também mães humanas podem voluntariamente emprestar ou alugar a sua barriga para trazer uma vida ao mundo. Com as fêmeas de outras espécies as pseudo mães são sistematicamente obrigadas a gestar e parir seres-produtos, objetos ou coisas de valor. Pouco importa se as vacas vão passar dias em agonia berrando pelo filhote que lhes foi roubado nas primeiras 24 horas após o nascimento. Na condição de órfãos machos poderão ser logo abatidos ou mantidos confinados em lugares escuros por até 5 meses e abatidos para a carne de vitela ou baby beef. Caso sejam criados para o corte os bezerros machos serão castrados sem qualquer uso de analgésico.

Quem também tem o ventre explorado de modo semelhante às vacas, são as sensíveis mães suínas, igualmente estupradas por mãos humanas através da inseminação artificial e exauridas pelas sucessivas gravidezes. Seres sociáveis, sensíveis e inteligentes, são aprisionadas e espremidas em recintos com chão de concreto e baias cercadas de ferro que mal podem se mexer ou virar-se. Não podem construir ninho com palhas em buracos escavados na terra para parir e abrigar seus bebês, que entre 2 e 4 semanas serão separados da mãe, não sem antes ter os dentes cortados e os testículos extraídos sem qualquer analgésico. E onde foi parar a compaixão humana por essas fêmeas destituídas de tudo?  No bacon, no toucinho, na lingüiça, no pernil e no torresmo degustado pela “solidariedade” de mães e pais humanos. E o leitãozinho à pururuca pode ser atraente para enfeitar um buffet de madame ou uma ceia cristã.

Outra situação emblemática é a dos pintinhos que nascem sem pai e sem mãe, pois são oriundos de ovos retirados das galinhas logo após a postura e levados para as incubadeiras artificiais, as chocadeiras. Sem o conforto de um ninho aquecido e protegido por uma galinha, jamais poderá ciscar a terra em busca de alimento e banho de areia e sequer terá convivência digna com os seus pares. Sendo fêmeas (poedeiras), terão o bico cortado e serão levadas para as granjas com luz artificial e condenadas a passar o resto de suas vidas confinadas em minúsculas gaiolas do tamanho de uma folha A4 sem poder esticar as asas e comendo apenas a única comida servida (ração). Enquanto isso, no caderninho de receitas da vovó cada vez mais vão enfiando ovos nos quitutes, sendo o seu uso desnecessário ou perfeitamente substituível. É fácil, já que não é nas mães humanas que vai doer. Os pintinhos machos normalmente são mortos no primeiro dia e sendo frango de corte, viverão espremidos em galpões escuros sem ventilação e luz natural.

Há inúmeras outras situações de fêmeas sendo cruelmente exploradas para fornecerem filhotes para a prática da vivissecção, para o comércio de filhotes, para a indústria de peles, para a diversão humana. etc. Na realidade, ausência total da dimensão solidária em estender e respeitar a condição peculiar de mãe às demais espécies.

Modernas fazendas de criação, onde as porcas são meras máquinas de fazer filhotes

*Márcio Linck é historiador, formado pela UNISINOS – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, atua em defesa do patrimônio histórico e cultural de São Leopoldo, como ambientalista participa da UPAN – União Protetora do Ambiente Natural desde 1986, entidade responsável por inúmeras conquistas na preservação ambiental e na defesa da qualidade de vida na região do Vale dos Sinos.
Atua em defesa da libertação animal e da conscientização e respeito a todas as formas de vida por meio de palestras, vídeos, artigos em jornais, sites e revistas e é membro ativista da Pro-Animal. Autor do Livro Para Além do Ambientalismo – Uma História em Duas Décadas (2008), que reúne uma seleção dos artigos publicados no Jornal Vale do Sinos entre 1988 e 2008. Contém cinco capítulos: Meio Ambiente, Animais, História, Política e Filosofia.
marcio@linck.com.br
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: